Seu traço reflete uma pulsão pelo preenchimento detalhista, o qual define como maximalista

Reportagens

A arte maximalista e outsider de Renato Monte

Artista visual de 31 anos foge das galerias formais, mas vende seus trabalhos para vários colecionadores

10 de setembro de 2020

Por Cinthia Lopes | Editora e redatora

O artista visual natalense Renato Monte tem uma obsessão pelos detalhes. Seu traço reflete uma pulsão pelo preenchimento quase infinito, no qual utiliza um tipo de pontilhismo próprio que ele mesmo definiu como “quase hipermaximalismo". Chega a ficar centenas de horas criando um único desenho e é possível que alguém precise de lupa para não perder as mínimas nuances por onde emergem seus seres místicos e as figuras de mentes expandidas.

Aos 31 anos e ainda sem exposição individual no currículo, o artista pode ser considerado um fenômeno de vendas. Longe dos salões de artes formais, comercializa seus trabalhos e interage com admiradores a partir de suas redes sociais. Sua produção dos últimos quatro anos foi toda vendida.

Os trabalhos de Renato Monte tem atraído colecionadores particulares e ele já chegou a vender uma série inteira para um único comprador. Atualmente, alguns de seus quadros podem ser vistos na Galeria B-612, na Ribeira. Um espaço que ele simpatiza por ser uma “não-galeria”. O artista leva a risca esse perfil "indie" , transpondo da música para a arte o fato de não ligar para exposições produzidas por alguma curadoria. Mas não descarta a ideia de uma hora dessas aportar em uma delas. Por enquanto, só quer continuar criando e se for para ser empresário, pensa em abrir uma loja virtual de materiais e ferramentas artísticas, algo que considera carente em Natal.

Nesta conversa com o TL, ele falou sobre sua arte e a relação com as pessoas que a consomem. “Eu me considero um artista outsider intuitivo que se reveza em processos ordenados e caóticos”, reflete. Teoriza ao dizer que poderia ir além se não entendesse a obsessão como masoquismo muito grande sem ganhos reais. “Ser maximalista já me basta, embora essa palavra seja pouco usada nas artes visuais.”

É como se Bruce Lee usasse a agilidade hipercinética do nunchaku para criar um objeto de arte? Quase isso. Para quem não conhece, nunchaku é aquela arma que o astro do cinema utilizava nos filmes de ação, feita de dois bastões de madeira e uma corrente. Não por acaso, Renato, que é também administrador de formação, foi praticante de nunchaku e campeão esportivo em 2012 nessa modalidade artística. A nascente de sua arte é uma extensão ou talvez uma nova vereda do desenvolvimento corporal adquirido com esse objeto esportivo.

“Acredito que meu impulso artístico mudou de rumo e primeiramente surgiu de forma corporal, quando me dediquei de corpo e alma a um esporte pouquíssimo difundido chamado nunchaku artístico. O que eu praticava era o uso dessa ferramenta com finalidade artística, por que vários dos movimentos que fiz eu tive que criar/descobrir/inventar...”

  

Dessa agilidade nasceu o desenho. Na essência um artista maximalista, não no sentido pragmático de quem o analisa, mas como ele se vê. “Maximalismo já é um termo pouco utilizado nas artes visuais, cabe mais na decoração de ambientes, mas seria o contrário do minimalismo, então minha pulsão é a de preencher com a maior quantidade possível das artes com a maior quantidade possível de detalhes. Eu iria além se não fosse uma força externa de rebote impedindo de exercer esse hipermaximalismo por que o ser humano prefere imagens com alto contraste, limpas, com clareza. Tudo o que isso não é”, descreve.

  

Seu trabalho poderia ser naif quando o considera assim como artistas autodidatas intuitivos que seguem seu processo próprio com poucas influências acadêmicas. “A diferença no entanto é que a outsider arte tende a nascer com um pouco de tosqueira, de desordem, de subversão, caos, muito maiores do que a arte naif que esteticamente agrada mais", explica.

Renato Monte brinca com a quantidade de descrições sobre seu trabalho. Já foi chamada de futurista e moderna, por outro lado, de primitivista e bruta. “Há artes que de fato eu misturei dois ou mais estilos em uma arte só”.

Unicórnio, peça vendida por R$ 400. Abaixo, o detalhe do preenchimento

Para o artista, a melhor descrição de sua obra foi feita pelo doutor Edrisi Fernandes, médico e filósofo, no artigo “O gabarito mágico de Renato Monte”. O doutor analisa especificamente o trabalho de Renato chamado “o milagre da criação” (1,50x1,50m, nanquim sobre papel Canson), a qual chama de magistral:

“Apesar da simplicidade cromática, várias nuances de cinza estão representadas, e a limitação da palheta de cores valoriza e induz à descoberta, exploração e fruição da extrema abundância sígnica. Num plano macrovisual, e em destaque central, avulta a figura de um grande rinoceronte. Pensamos quase automaticamente no Rhinocerus do matemático, naturalista, ilustrador, gravador, pintor e teórico de arte alemão Albrecht Dürer (1471-1528) – uma delicada xilogravura de 1515 mostrando, com alguma fantasia, aquela que provavelmente seria, conforme o crítico de arte londrino Tim H. Clarke (Timothy Hunt Clarke), a figura animal que maior influência exerceu sobre as artes.”

Ao analisar o plano macrovisual, explica que “as figuras que compõem os padrões que cobrem grandes extensões do rinoceronte (como o dorso, chifres e pata traseira esquerda) fazem recordar composições mais encontráveis em peças do vestuário, partilhando esse aspecto com obras da carioca Beatriz Milhazes e do potiguar Carlos Sérgio Borges. Na região do dorso há linhas de figuras semelhantes a escamas, que lembram padrões indianos. Logo embaixo, figuras variadas (havendo ali, por exemplo, uma interrogação e um cifrão) aparecem num arranjo quadriculado que lembra os jogos de mesa urbanos ou as mesas de jogo dos parques de diversão das festas interioranas.”

E segue apontando as referências: “ideias prodigiosas e suas expressões gráficas articulam-se sincreticamente numa composição que remete à Grande Arquitetura - o ordenamento do mundo -, e o artista instiga-nos sobre a congruência e a convergência entre abstrato e figurativo, Oriente e Ocidente, o oculto e o desvelado, o alfa iniciador e o ômega arrematador. Ficamos tentados a imaginar que, num grande painel único, Renato Monte oferece ao mundo conjuntos de esquemas de engenharia reversa reveladores dos mecanismos da própria estruturação do Cosmos.

Para Renato, resumidamente ele quis dizer que seu trabalho “é uma mistureba muito doida cheia de padrões e detalhes", brinca o artista, que se sentiu honrado e “abismado com a riqueza de detalhes que ele conseguiu descrever”. A obra e o texto que a descreve podem ser vistos na Galeria B 612, disponível para visitação. 

Obra Rinoceronte, Nanquim sobre papel Canson

Sobre as exposições, Renato não tem como meta expor nem aqui nem lá fora. Prefere permanecer distante da lógica mercadológica do mercado de arte por achar que não se enquadra nela. “Eu já estou satisfeito com a quantidade de obras que vendi e tenho vendido, que foram muitas, e até mesmo pelo valor que tenho vendido. Já vendi prints, e para ser sincero é algo que eu tenho até certo desprezo, respeito os artistas que vendem isso e quem compra, mas é algo que não gosto, pra mim não é arte, é um produto, assim como reproduções, gravuras e similares”, polemiza. “Prefiro viver enfurnado criando”.

Para conhecer o trabalho de Renato Monte

Acesse @Renatomontearts no Instagram

Ou Galeria B-612, rua Dr Barata, Ribeira. https://www.galeriadearteb612.com.br/