Quem lava a louça todinha é a máquina de lavar. Nós, humanos, lavamos um prato de cada vez

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A ARTE ZEN DE LAVAR A LOUÇA

Como você já deve ter deduzido, este modo consiste em lavar um copo somente quando todos os outros estão sujos

28 de abril de 2022

Clotilde Tavares

Há uma meia hora estava eu na pia da cozinha, de avental, praticando aquilo que eu chamo de “a arte zen de lavar a louça”. Explico. Vivo sozinha, e tenho uma diarista que vem uma vez por semana dar conta do “pesado” que eu não consigo mais fazer direito: lavar os banheiros, passar pano no piso e administrar toda a parte do apartamento que fica a mais de um metro e setenta do chão, região inacessível para esta pessoa de um metro e cinquenta que morre de medo de cair e que por isso não sobe em banquinho ou escada. No dia a dia, entretanto, sou eu mesma quem cuida dessa parte doméstica, com alguma preguiça e pouca disposição porque sou uma pessoa normal, e gosto mesmo é de me sentar na poltrona fofa e macia enquanto leio ou vejo minhas séries na TV.

Enquanto isso, as horas vão passando e, a cada vez que entro na cozinha, a pia me devolve a visão terrífica de pratos empilhados em desordem, talheres misturados com os pratos, prato fundo em cima de pires, xícaras misturadas com copos e os malditos recipientes plásticos onde congelo a comida e nos quais a gordura se apega como um náufrago a uma tábua no oceano. Ao mesmo tempo, e misteriosamente, o armário onde guardo as louças vai se esvaziando como se, por obra da magia, elas saíssem das prateleiras onde repousam e fossem flutuando até a pia.

O caso é que, quando essa situação evolui – não sei como, pois, como disse, estou lá fora, na sala, na poltrona, distraída com os livros e as séries – eu, de repente, sem nem saber como, me vejo lavando louça no modo “sob demanda”. Como você já deve ter deduzido, este modo consiste em lavar um copo somente quando todos os outros estão sujos, valendo o mesmo para garfos, xícaras, pratos e demais utensílios. Só quando essa fase é atingida, é que entra em ação aquilo que eu chamo de “a arte zen de lavar a louça”.

É fácil de entender. Se eu encarar aquela montanha de louça suja e disser: “Meu Deus, vou ter que lavar essa louça todinha!” corro o risco de voltar imediatamente à poltrona e deixar o problema para mais tarde. Para superar esse modo “sob demanda” a “atitude zen” consiste em, de acordo com os ensinamentos do Buda, concentrar-se no presente, no aqui-e-agora.

Quem lava a louça todinha é a máquina de lavar. Nós, humanos, lavamos um prato de cada vez, uma xícara depois da outra. O prato que está na minha mão é o único que me interessa, é o meu presente, é o minuto mais importante da minha vida, é somente dele que eu tenho certeza. O prato anterior já está limpo, no escorredor; o prato seguinte ainda está na pia, mergulhado no detergente. Esse prato que agora eu manuseio é o objeto mais significativo do mundo, porque compartilha comigo desse momento, que é o único no qual eu tenho certeza de que estou viva, pensante, existente, continuante, ligando passado e futuro mas existindo somente no agora, sendo palco e plateia, em contato com a vida, pensando crítica e historicamente, problematizando e anotando mentalmente sobre as ilusões da realidade para escrever depois sobre elas. Foi isso que fiz há uma meia hora, enquanto lavava a louça e registrava no juízo essas ideias, que agora fluem direto para você, querida e paciente pessoa que está lendo. Namastê.


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