
Mente Ativa, iniciativa da Polícia Militar do RN, é voltada à educação para a aposenradoria
Colunas
Programa Mente Ativa aponta novos caminhos para quem dedicou uma vida à segurança pública
15 de setembro de 2026
Por Leticia Outeda
Existe um dia, na vida de todo policial militar, que não fica registrado em nenhum boletim de ocorrência. É o dia em que a farda é dobrada, guardada no armário, e não vestida de novo na manhã seguinte. Depois de décadas de plantões, rondas e decisões tomadas em frações de segundo, chega o momento em que a rotina para, mas a vida, essa, continua.
E é justamente para o que vem depois desse dia que poucos preparam o policial.
"Passei duas décadas nas viaturas da Polícia Militar e aprendi, na prática, que por trás da farda existe um ser humano exposto ao medo, à pressão, ao desgaste e às perdas. O Mente Ativa nasceu da vontade de cuidar desse profissional antes que o sofrimento silencioso cobre um preço maior", resume Alex Pereira, idealizador, secretário e membro da coordenação pedagógica do programa.
A mesma inquietação levou o sargento Valdeci Rodrigues, um dos colaboradores do projeto desde a fase acadêmica, a pensar em soluções para colegas que chegavam à reserva "sem planejamento, sem estabilidade financeira e, principalmente, sem perspectiva de futuro". E "Poder ajudar a salvar vidas de policiais que dedicaram a própria vida à sociedade é o que me mantém até hoje no projeto", resume.
É esse cuidado que se materializa em sala de aula. Zelda, instrutora do módulo de Inclusão Digital na segunda turma, reencontrou entre os alunos colegas que conheceu no início da própria carreira, quase trinta anos antes. De um lado e outro da sala, agora, dois profissionais se preparando para a mesma travessia. "Foi um momento ímpar. Vocês representaram todos os policiais que estão em todas as unidades que eu não tive a oportunidade de conhecer, mas que são irmãos de farda", relembra.
O empresário Alex Santiago, à frente do Curso Mauhel há trinta anos, viveu uma cena parecida. Ao entrar como aluno no Mente Ativa, reconheceu na turma antigos alunos seus, hoje policiais militares. "Percebi que a semente plantada ao longo desses trinta anos germinou e gerou grandes frutos. Muitos deles hoje são profissionais de destaque na segurança pública", resume.
Foi para responder a essa lacuna, o silêncio que existe entre "servir" e "se aposentar", que nasceu o Programa Mente Ativa, iniciativa da Polícia Militar do Rio Grande do Norte (PMRN) voltada à educação para a aposentadoria, à valorização do profissional e à preparação de militares estaduais para a reserva remunerada.
![]()
Uma ideia nascida longe do batalhão
A história do Mente Ativa não começa num quartel. Começa numa sala de aula, em 2023, durante uma atividade do curso de Gestão Estratégica na Escola de Governo do RN (EGRN). Um grupo de alunos recebeu um desafio comum a qualquer curso de gestão pública: pensar um projeto institucional. A resposta que encontraram, no entanto, mirava um ponto raramente discutido dentro da caserna, a transição do policial para a reserva.
A proposta ganhou corpo no curso de Gestão Pública, oferecido em parceria entre a EGRN e o Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), até ser reconhecida como projeto de extensão. Foi o primeiro sinal de que aquele exercício acadêmico tinha algo raro: potencial para sair do papel.
![]()
Da sala de aula ao Comando-Geral
Dentro da corporação, o projeto encontrou um interlocutor decisivo no Centro de Estudos Superiores da PMRN. O diretor, coronel Júlio César Farias Vilela, enxergou ali muito mais do que um bom trabalho de curso, "Reconheci a competência e humildade no idealizador, percebendo uma abertura para um processo de cocriação em benefício da coletividade. Inicialmente, benefícios para a PMRN", explica o coronel. Para ele, o processo de adaptar a proposta acadêmica à linguagem institucional foi "extremamente agradável e desafiador, pois tratava-se de uma contribuição inovadora".
Com apoio e ajustes, a proposta chegou ao Comando-Geral. Em dezembro de 2024, a ideia virou norma. Pela Portaria Normativa nº 103, o Mente Ativa foi oficialmente institucionalizado como programa de valorização profissional policial e qualificação para a reserva, o tipo de passo burocrático que, por trás da formalidade… Garante que um bom projeto sobreviva à próxima troca de gestão.
![]()
Preparar para a reserva é preparar para o futuro
Planejar a aposentadoria não é só falar de dinheiro, embora também seja. Em agosto de 2025, a primeira turma da Capacitação Mente Ativa reuniu 30 policiais militares em torno de temas como educação financeira, sustentabilidade, inclusão digital, empreendedorismo inovador e qualidade de vida. A formatura contou com a presença do Comando-Geral da PMRN, da Diretoria de Ensino e de representantes das secretarias de Segurança Pública e da Administração, um gesto que, mais do que “apenas” protocolo, sinalizava que aquele grupo de policiais prestes a deixar a farda eram prioridade institucional.
Em fevereiro de 2026, o programa foi além: um ciclo de palestras sobre educação financeira, no Templo Central da Igreja Universal, em Natal, levou a discussão a quem está no começo da caminhada, alunos do Curso de Formação de Policiais. A mensagem por trás da ação é simples: planejar o futuro não deveria começar apenas quando a carreira está terminando.
É o que descobriu o sargento Alex Santiago, empresário do setor de cursos profissionalizantes, ao participar do Mente Ativa como aluno: "Tive a oportunidade de interagir com outros empreendedores, conhecer diferentes modelos de negócios e, a partir dessas experiências, saí com uma visão muito mais ampla sobre novas possibilidades e caminhos para o empreendedorismo."
Também esteve em sala a coronel Queila, subdiretora de Pessoal da PMRN e, até aqui, a primeira mulher e a primeira oficial a integrar o programa. Para ela, porém, a decisão pouco teve a ver com esse ineditismo. "A decisão de participar do curso Mente Ativa não teve relação direta com o sexo ou mesmo com o posto, mas com os valores que atribuo ao trabalho dentro da minha vida, pois considero que na atualidade o trabalho molda nossa rotina", explica. Ainda assim, reconhece o peso simbólico de sua presença: "Acredito que, por ser oficial, posso servir de inspiração para outros oficiais, pois independente da função a participação no curso nos agrega conhecimentos e reflexões, neste momento tão importante da vida profissional."
Sobre atrair mais mulheres e mais oficiais às próximas turmas, é enfática: "A participação no curso é de grande valia tanto para oficiais quanto para praças, independente do sexo, até porque todas as funções que desempenhamos nos exigem conhecimento e competência, e não o sexo. Mas destaco que é necessário que a participação seja voluntária."
Em fevereiro de 2026, o programa foi além: um ciclo de palestras sobre educação financeira, no Templo Central da Igreja Universal, em Natal, levou a discussão a quem está no começo da caminhada, alunos do Curso de Formação de Policiais. A mensagem por trás da ação é simples: planejar o futuro não deveria começar apenas quando a carreira está terminando.
![]()
Um CASE que virou referência
O Mente Ativa deixou de ser uma iniciativa isolada para se tornar exemplo de gestão pública. Foi apresentado nos Congressos de Gestão Pública da Secretaria de Estado da Administração (CONGESP/RN), teve sua experiência publicada na revista InPública e recebeu reconhecimento no Inova RN e no Decola RN, este último, com apoio do Sebrae e do Instituto Metrópole Digital.
Em maio de 2024, mais de 300 policiais militares de diferentes regiões do estado se reuniram no 1º Workshop de Valorização Profissional Policial, com palestrantes do IFRN, da UFRN e da Secretaria de Planejamento, além da Banda de Música da PMRN.
O tamanho do evento impressionou até o Comando-Geral, que quis saber como a equipe havia conseguido organizar tudo aquilo. A resposta de Alex Pereira resume o espírito do projeto até hoje: "sem um real no bolso, mas com uma boa ideia na cabeça."
Por trás dos números, uma ideia simples sustenta tudo: instituições são feitas das pessoas que as compõem. Cuidar de quem passou a vida cuidando da segurança da população não é uma pauta paralela à segurança pública, é parte dela.
"Cuidar de quem cuida não é benefício individual, é investimento em segurança pública. Um profissional valorizado, emocionalmente fortalecido e preparado para as mudanças da vida serve melhor à instituição, à família e à própria sociedade", reforça Alex Pereira.
Anos depois, ao ver o programa consolidado, o sentimento do coronel Vilela se resume em poucas palavras: "Orgulho, felicidade, sentimento de pertencimento, contribuição com um legado." Sobre a forma como o Mente Ativa se comunica hoje, ele reflete: "Acredito que está melhor, pois nada é definitivo, perfeito, que não mereça ser aperfeiçoado. Desejo que a coordenação não deixe de buscar a evolução constante do programa. Sucesso."
![]()
Duas fardas, um mesmo propósito
Na 2ª edição da Capacitação Mente Ativa, o programa deu um passo além: passou a integrar também o Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Norte (CBM/RN). Policiais e bombeiros, que por anos protegeram a mesma população sob fardas diferentes, passam agora a dividir a mesma sala de aula, e um mesmo objetivo: construir uma reserva saudável e socialmente ativa.
À grade já consolidada, somaram-se dois temas novos: comunicação e oratória, e inteligência artificial aplicada à reserva militar. Um sinal de que o programa também amadurece junto com quem ele forma.
![]()
Quem passou pela sala, aprovou
Números e portarias contam uma parte da história. A outra parte está nos relatos de quem sentou nas cadeiras da capacitação.
A instrutora Zelda lembra de uma turma heterogênea, majoritariamente masculina, com histórias e ritmos de aprendizado muito diferentes entre si, mas unida por um mesmo desejo de aprender. "Percebemos que tecnologia não é questão de idade, mas de oportunidade, prática e confiança", sintetiza. Ao se despedir da turma, deixou um recado que carrega, em uma frase, o espírito do próprio programa: "O próximo desafio digital não precisa ser um obstáculo. Pode ser uma conquista."
Entre os alunos daquela turma, ela reencontrou histórias antigas. "Foi um momento ímpar", repete, ao lembrar dos colegas que a acompanham, décadas depois, na mesma travessia.
Do lado de quem concluiu o curso, os relatos confirmam o impacto. "Só quem frequenta sabe a real importância e a magnitude que tem o curso Mente Ativa", resume um dos participantes da primeira turma. Outro colega reforça: "Todos vocês, idealizadores e organizadores, estão de parabéns. Só quem participou sabe da real importância desse curso."
Para Alex Pereira, é justamente esse tipo de reação que confirma o propósito do programa: "O maior orgulho não está apenas nos eventos. Está em ouvir um participante dizer que não se sentiu em mais um curso, mas em um reencontro com amigos de farda."
![]()
A experiência não se aposenta
Ao longo de uma carreira inteira, policiais e bombeiros acumulam muito mais do que tempo de serviço. Acumulam histórias, medos superados, perdas, aprendizados e vínculos que não desaparecem no dia em que a farda é guardada pela última vez.
Pensar a aposentadoria como política pública é reconhecer isso: que o cuidado com o servidor não termina quando se encerra sua vida funcional ativa. O Mente Ativa nasceu de uma pergunta de sala de aula, atravessou instituições, e hoje é ação concreta dentro da segurança pública potiguar.
"O Mente Ativa procura enxergar o ser humano por trás da farda. Nossa proposta é transformar experiência em possibilidade, desgaste em aprendizado e transição em projeto de vida, mostrando que a reserva não precisa significar perda de identidade, mas oportunidade de reconstrução", resume Alex Pereira.
No fim, preparar alguém para a aposentadoria não é ensiná-lo a parar. É entregar ferramentas para que continue, em outro ritmo, construindo novos caminhos.
Porque a farda pode, um dia, deixar a rotina. A experiência, os sonhos e a vontade de contribuir não precisam ir com ela, mas sim, continuar.
Entrevista - Alex Pereira | Idealizador, Secretário e membro da coordenação Pedagógica
1. Quando o Mente Ativa era só um exercício acadêmico, que te fez pensar que aquela ideia sobre a transição para a reserva merecia virar mais do que um trabalho de curso?
Eu não imaginava que aquela ideia ganharia a dimensão que tem hoje. Naquele período, eu atuava no setor de pesquisas do Centro de Estudos Superiores da PM do RN e tinha contato direto com trabalhos científicos produzidos dentro da própria instituição. Foi ali que comecei a perceber um padrão: temas como educação financeira, inclusão digital, empreendedorismo e qualidade de vida apareciam repetidamente como preocupações importantes para os policiais. Eu havia passado cerca de vinte anos no serviço ostensivo, dentro das viaturas, nas ruas da capital, e conhecia de perto o desgaste acumulado e a dificuldade que muitos policiais tinham de se imaginar fora daquela identidade construída durante décadas.
Quando levei essa inquietação para o IFRN, ela encontrou espaço para crescer. A ideia amadureceu até se transformar no Programa de Valorização Profissional Policial e Qualificação para a Reserva. Em 12 de dezembro de 2024, por meio da Portaria nº 103, o Mente Ativa foi institucionalizado.
Talvez tenha sido esse o ponto em que eu entendi que o Mente Ativa precisava existir de verdade. O projeto nasceu exatamente desse encontro entre experiência, estudo e uma pergunta muito simples: quem passou tantos anos cuidando da sociedade também não merece ser preparado e cuidado quando chega a hora de começar uma nova etapa da própria vida?
2. Qual foi o momento mais difícil desse caminho, e o que quase fez o projeto não sair do papel?
O momento mais difícil não foi técnico, nem acadêmico. Foi humano. Percebi que nem sempre as pessoas torcem pelo sucesso de uma ideia, mesmo quando essa ideia pode beneficiar a própria instituição. Existe, em alguns ambientes, uma cultura de resistência e desconfiança. Mas foi justamente aí que adotamos uma postura diferente: ouvir, acolher, dar atenção e, sempre que possível, trazer essas pessoas para perto. Porque crescer sozinho é muito limitado. Crescer junto fortalece a ideia e fortalece a instituição. A nossa crença sempre foi simples: persistir é vencer.
3. Como Secretário e membro da coordenação pedagógica, como vocês decidem o que entra na grade da capacitação? Por que temas como inteligência artificial e comunicação entraram nesta 2ª edição?
Eu vejo a grade da Capacitação Mente Ativa como algo vivo. Ao final de cada disciplina, aplicamos pesquisas de satisfação e ouvimos quem está vivendo a experiência na prática. Foi exatamente desse processo que temas como comunicação, oratória e inteligência artificial ganharam espaço nesta 2ª edição. A comunicação policial é indispensável dentro do serviço, mas também fora dele, nas relações que surgem depois da reserva. Já a IA entrou como ferramenta de aceleração e autonomia, ajudando o aluno a organizar ideias e transformar experiência acumulada em novas possibilidades. No fim, o critério é simples: a grade não é feita para preencher horas, mas para abrir caminhos.
4. Depois de ver turmas passarem pela capacitação, o que você percebe que muda na forma como um policial encara a aposentadoria, além da parte financeira?
Uma das mudanças mais bonitas é perceber que a aposentadoria deixa de ser vista apenas como o momento de descansar depois de quase três décadas defendendo o povo potiguar. Aos poucos, muitos começam a enxergar essa transição como uma nova etapa de produtividade, de autonomia e de propósito.
Quem passou anos gerenciando conflitos, liderando equipes e tomando decisões sob pressão desenvolveu competências que podem ser usadas em muitos outros caminhos, na gestão de um comércio, de um projeto social, de uma equipe ou da própria vida familiar. Quando o policial percebe isso, a reserva deixa de parecer um ponto final.
5. Olhando pra trás, desde o início do projeto até hoje, o que você mais se orgulha de ter construído com o Mente Ativa? E qual é o próximo sonho?
O que mais me orgulha é olhar para trás e perceber que aquilo que nasceu como ideia acadêmica passou a produzir efeitos reais na vida de profissionais da segurança pública. Um dos momentos mais emblemáticos foi o 1º Workshop de Valorização Profissional Policial, em 28 de maio de 2024, quando reunimos cerca de 300 policiais. Quando o Comandante-Geral perguntou como conseguimos fazer tudo aquilo, a resposta resumiu muito do espírito do projeto: "sem um real no bolso, mas com uma boa ideia na cabeça." Mas o maior orgulho não está apenas nos eventos. Está em ouvir um participante dizer que não se sentiu em mais um curso, mas em um reencontro com amigos de farda.
O próximo sonho já começou a sair do papel. No meu trabalho de conclusão da pós-graduação em Gestão Pública, desenvolvi a proposta "Gestão das Emoções: a criação de um núcleo neurocientífico de Polícia no RN", incorporando a neurociência ao eixo de valorização profissional do Mente Ativa. A proposta despertou o interesse da COGEP/RN e da Secretaria de Administração, e, a partir da articulação com a coordenadora Ilana von Sohsten, levamos o tema ao Instituto Internacional de Neurociências. O interesse da instituição abriu caminho para uma construção conjunta envolvendo COGEP, Diretoria de Ensino PMRN e outras áreas da segurança pública.
Hoje, esse sonho aponta para a criação do primeiro curso de formação em Neuroliderança Policial, aplicando conhecimentos da neurociência para reduzir fatores organizacionais que contribuem para o adoecimento mental dos servidores. Se o Mente Ativa ensinou alguma coisa até aqui, é que um projeto pode começar pequeno, mas quando nasce de uma necessidade verdadeira, ele pode mudar uma instituição inteira.
12 de abril de 2023
07 de abril de 2023
07 de abril de 2023
28 de junho de 2022
16 de junho de 2022
20 de fevereiro de 2022
20 de fevereiro de 2022
20 de fevereiro de 2022
04 de junho de 2023
15 de setembro de 2022