Maria Luíza Chacon transita entre conto, prosa poética e fragmento ensaístico

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Inútil corroer o osso da tempestade: a força da opacidade

Em estreia literária, Maria Luíza Chacon apresenta linguagem que entra em fricção consigo mesma, com os gêneros, com os sentidos e com o leitor

22 de julho de 2026

por Marize Castro 

Com Inútil corroer o osso da tempestade (Cachalote, 2024), Maria Luíza Chacon estreou em livro apresentando uma linguagem que entra em fricção consigo mesma, com os gêneros, com os sentidos e com o leitor. Os textos transitam entre conto, prosa poética e fragmento ensaístico, mas não se fixam em nenhuma dessas formas. A linguagem deixa de apenas conduzir a narrativa e passa a produzir a própria experiência do texto.

 Essa operação já está anunciada no próprio título. “Osso” evoca estrutura; “tempestade”, dispersão. “Corroer” sugere insistência, enquanto “inútil” desfaz a expectativa de alcançar um sentido último. 

 “Anasyrma”, texto de abertura, anuncia esse projeto. O termo designa o gesto antigo de erguer as vestes e expor o corpo. A linguagem dobra-se sobre si mesma e desfaz qualquer ideia de estabilidade. Ao longo do livro, corpo, paisagem, desejo e linguagem passam a coexistir sem hierarquias. Os nomes já não delimitam aquilo que nomeiam.

 Em textos como “O olho”, “Leide” e “Efraim meu amor”, Maria Luíza reconfigura continuamente a percepção. O olhar deixa de ordenar o mundo; a boca deixa de ser apenas lugar da fala para tornar-se espaço de contenção; a cicatriz prolonga o corte, mantendo a violência inscrita no corpo e na linguagem. A escrita acompanha esse movimento: contorna, insiste, retorna, contorce-se, reabre.

Maria Luíza Chacon estreia com  "Inútil corroer o osso da tempestade" (Cachalote, 2024)

 

Nos textos seguintes, esse gesto se desdobra. Em “Altiva como a mulher de Ló”, a opacidade se afirma como modo de conhecimento. O sal deixa de simbolizar apenas punição. Em “Herodias e Salomé”, o corpo transforma-se em performance. Já em “Em vovó, meu cu”, infância, religião, desejo e violência aparecem profundamente entrelaçados, compondo uma memória em que cuidado e invasão se confundem. 

No penúltimo texto, que dá título ao livro, o corpo atravessa a tempestade sem promessa de saída. O Mar dos Sargaços é a imagem dessa suspensão: um lugar onde nada se fixa. Nesse cenário de instabilidade a pergunta passa a ser como mover-se. O nascimento surge como processo contínuo, passagem de um corpo a outro. 

Ao final do livro, em “Tua mão quando toca abre um caminho”, a personagem Camélia só se interessa pelo que é “rasteiro ambicionando nuvens”. As listas que ela faz fragmentam o real; é dessa fragmentação que nasce sua poesia. Ao lado dela, outro personagem, Damiões, tenta nomear, reparar, dar forma, mas fracassa. A imagem do balão à deriva condensa esse estado: nem subida, nem queda.  

Esta escrita recusa a transparência e encontra na opacidade sua força. Cada texto amplia as possibilidades da leitura, sustentando aquilo que permanece vivo, instável e irredutível à explicação. Maria Luíza Chacon oferece a chave desse percurso ao escrever: “o real entendimento vem com a desleitura”. Onde encontrar Inútil corroer o osso da tempestade, de Maria Luíza Chacon, pode ser encontrado no site da editora Cachalote. 

Dobras

Volutas

Rapapés

Mar egeu

Varejeiras

Os nunca vi na vida

Os penso porque sonhei

Escutei não lembro onde.

Grito heras nos muros. Minha fixação é precisa – picho em verde alinhavado rente. Heras é rasteiridade suspensa. Só o que é rasteiro ambicionando nuvens me interessa. Deram-me um nome feminino para que eu não sufocasse por ser A Mulher. Quando perguntassem o meu nome na rua e eu fosse responder iria morrer sem ar com falta de ar. Eu não sei se prefiro morrer sem ar ou com falta de ar mas acho que prefiro com falta de ar porque com nós pensamos ser sozinhos menos e ser sozinho menos é ambição das gentes. Mas então me deram um nome e fica dificílimo pensar em ares – não fosse pelo meu nome e o pensamento correria solto, mas eis que fico vivendo toda presa serpente nos cabelos de Medusa. Deram-me nome de uma flor que nunca vi. Do jeito que vai a vida sem vírgula uma hora o ar falta.

 

(Fragmento de Tua mão quando toca a minha abre um caminho.)