Iracema Macedo inscreveu seu nome na Poesia Potiguar e mora hoje em Maricá, no interior do RJ

Reportagens

Iracema Macedo: "A escrita foi minha forma de emancipação, minha maneira de estar no mundo"

Autora prodígio nos anos 90 fala ao TL do RJ, onde vive, sobre pandemia, livros, processo criativo. De quebra, ainda nos cede um poema inédito

28 de junho de 2022

Cefas Carvalho | Literatura pelo Brasil Afora
 
Natalense nascida em 1970, Iracema Maria de Macedo Gonçalves da Silva já inscreveu seu nome na Poesia Potiguar e mora hoje em Maricá, no estado do Rio de Janeiro. Licenciada em Filosofia pela UFRN e pós-graduada pela Unicamp, participou ativamente do cenário literário potiguar nos anos 90 e 2000, tendo publicado "Vale Feliz" (1991, em parceria com os poetas Eli Celso e André Vesne), "Lance de dardos" (2000), "Invenção de Eurídice" (2004), "Poemas inéditos e outros escolhidos" (2010) e "Cidade Submersa" (2015), além de sua tese de doutorado: “Nietzsche, Wagner e a época trágica dos gregos” (2006) e Canção da Mulher que virou barco", uma coletânea de todos os poemas mais escritos em torno da figura feminina. Com poesias publicadas em jornais, revistas literárias e estudadas em todo o Brasil, a poeta correu mundo, tendo morado e trabalhado como professora em Ouro Preto e Rio de Janeiro. Em entrevista para a série Literatura pelo Brasil afora, Iracema falou sobre pandemia, livros, processo criativo e muito mais, e ainda construiu um poema inédito, aqui divulgado pela primeira vez.
 
Lendo sua obra, percebe-se que as mulheres na sua poética são reais, com desejos e vontades. Sua poesia pode ser considerada uma militância libertária, feminista?
 
Essa é por assim dizer uma questão bem da hora, mas é algo que só comecei a me perguntar, incrivelmente, nos últimos anos. Comecei a escrever muito jovem, lembro de um primeiro poema já com doze anos de idade e aconteceu tudo de uma forma muito espontânea e natural, como já pude dizer, em outras oportunidades, porque minha mãe tinha, e ainda tem, um caderno com poemas manuscritos, tanto de autoria dela, como de seus amigos, mas sobretudo de grandes autores, em geral os poemas ainda eram até bem antigos como os de Olavo Bilac, Augusto dos Anjos e outros autores, muitos ela copiava da sessão cultura dos jornais.
 
 Ela também tem um caderno com letras de canções, cultivou esse hábito em sua época de estudante e adolescente.  Eu descobri os cadernos mais ou menos na mesma idade que ela os confeccionou, e vieram então poemas para minhas mãos através dela. É curioso que isso é o que considero de mais belo na educação por parte de minha mãe, ela nunca me exigiu nada desses dons domésticos e os cadernos foram então a minha nutrição materna mais fértil e linda e assim comecei a escrever imitando o que lia nos cadernos, como quem descobre que pode desenhar, imitando um caderno de desenhos.
 
Na mesma sequência, também aconteceu a escrita de diários onde eu elaborava tudo que me ocorria: incertezas, dúvidas, sonhos, medos e já pulsava também em mim uma necessidade imensa de escrever. Do lado do meu pai havia muita inspiração para leitura, muitos livros de história, política, economia, literatura em prosa, filosofia. Sou filha de duas pessoas muito estudiosas,  mas que nunca me cobraram muito nesse setor porque era quase um ambiente natural onde eu vivia, o das letras. Meus pais eram do interior e estudaram em colégio interno, ela em colégios de freiras e ele no Seminário, e depois acabaram se conhecendo na Faculdade de Direito na velha Ribeira. 
 
Nesse ponto tive o chamado " privilégio" de ter acesso aos estudos desde criança, sou da chamada família classe média dos anos 1970 e, como tal, também a inspiração de uma mãe no cenário do mundo do trabalho e da politização, um dos meus maiores orgulhos de minha mãe foi quando foi ao meu Colégio, já professora Universitária, dar uma palestra sobre a Constituinte de 1988, um ano antes de eu fazer justamente o vestibular para Filosofia. Apesar de ter pais com uma postura até bem aguerrida e politizada para a época, sofri, obviamente, as limitações que hoje entendo como o que chamam de patriarcado estrutural. Apesar de todos os limites da minha família classe média, eu fui muito educada para a liberdade e a autonomia. 
 
 Então era meio paradoxal, porque havia repressão por um lado e um incentivo imenso à liberdade por outro. Fiquei nessa encruzilhada meio que num corpo a corpo com meus pais sobre que filha era essa que eles queriam ter. Nunca se pronunciou a palavra feminismo lá em casa, mas havia algo latente na postura de minha mãe com a vida e, ao mesmo tempo, algo fortemente patriarcal e também feminista pelo lado do meu pai. Não era uma confusão fácil de entender e, na época, eu não entendia isso de jeito nenhum e acho que nem eles (risos) eu era repreendida e admirada ao mesmo tempo pelos meus pais. Fui criada assim, nesse paradoxo. Mas eu escrevia como quem desenhava e me contava a mim mesma a minha história por escrito.
   

Somente agora, décadas depois, é que tenho a clareza de que a escrita foi minha forma de emancipação, autoformação, minha maneira de estar no mundo, meu pertencimento e que, realmente, esse pertencimento corresponde a um movimento feminista, porque era a forma de uma menina ir sobrevivendo em meio às forças adversas da vida e, mais tarde, foi a forma de uma mulher também ir se estruturando e se configurando em um cenário que nunca foi fácil para as mulheres. Por exemplo, eu tinha desejos acadêmicos fortes e a vida acadêmica ainda era muito masculina e sudestina, e, dessa forma, acabei, como se diz, ganhando um pouco o mundo, indo atrás dos meus desejos, mudando de cidades para estudar e, depois, para lecionar.

E algo que se tornou marcante para mim nessa trajetória foi ter passado por muitas cidades diferentes e hoje me encontrar recolhida em uma cidade do interior, a 60 km do Rio, dando aulas e vivendo uma vida agora um pouco mais serena e pacata aparentemente , porque por dentro é sempre fogo e brasa.  Então toda a minha escrita tem marcas que se podem dizer feministas, ainda que em nenhum lugar, possa ser detectado algum tipo de militância muito explícita, porque hoje vejo que não sou uma pessoa tão gregária, acho que há algo meio eremita em mim, sempre gostei muito de ter uma vida recolhida, mas é recolhimento libertário e representa também a trajetória muitas outras mulheres da minha época que se associaram e fazem militância.

 
Sua obra perceptivelmente tem influência da filosofia, sua área acadêmica e profissional, e, por extensão, pela mitologia. Como avalia a influência e o impacto destas áreas em seu fazer poético?
 
Como mencionei, a vida acadêmica acabou me levando para a estrada, de tal forma e com tanta variedade que realmente ela influenciou e influencia demais tudo que faço, nesse no sentido das minhas geografias que foram mudando, seja no sentido das experiências e hoje também entendo muito que uma forte presença da minha profissão em tudo que escrevo. Sou professora, lido com jovens diariamente, partilhando com eles angústias, expectativas, fracassos, perdas, ganhos, vivências amorosas, desafios familiares. Acredito que estar bem perto dessa realidade me mostra muito o que o nosso país. De alguma forma fui traduzindo minha experiência de vida em alguns poemas ficcionais que referem a mitos, mas também ao cotidiano de uma mulher apaixonada, vivendo amores, casamentos, trabalho. Sou hoje uma pessoa rotineira e cotidiana, com horários e deveres a cumprir, uma pessoa com vivências bem comuns e não muito sociável fora desse ambiente mais comum. Minha profissão às vezes também é uma forma de me ocultar e de me transformar em um meio de transmissão de alegria, indignação, desejo de liberdade e conhecimento. Faço isso em um microcosmo e às vezes me sinto radiante em não precisar de muito mais que um microcosmo.
 
 
O que une e o que separa "Lance de dardos" (2000), "Invenção de Eurídice" (2004), "Poemas inéditos e outros escolhidos" (2010) e "Cidade Submersa" (2015), seus livros publicados? Qual a avaliação que faz do conjunto de sua obra?
 
   Acho que "Lance de dardos", "Invenção de Eurídice" e " Poemas inéditos e outros escolhidos" retratam a trajetória de uma mulher em seus riscos, perigos, desafios até os quarenta anos, são livros cujos poemas praticamente foram quase todos escritos no Nordeste e em Minas Gerais, têm as marcas dessa geografia poética, dos amores, medos e amarguras que me atravessaram e que representam uma pluralidade de mulheres e pessoas que também me cercaram e construíram comigo esses cenários, esse imaginário coletivo. A saída do lugar de nascença para uma vida meio viajante e nômade, as pessoas que eu ia conhecendo no caminho. Esses livros retratam por assim dizer uma viagem, uma pequena odisseia particular e plural. 
 
Já " Cidade Submersa" tem as marcas também da vida na metrópole, do tempo em que estive mais instalada no Rio de Janeiro, da perda de um grande amor que durou 20 anos e hoje é um amor, como diz a letra de Chico, que já vive no tempo da delicadeza. Eu diria que um livro com uma dose maior de âncora e naufrágio, eu estava parada em um porto, mas dessa vez era o porto que viajava, oscilava, submergia, emergia, acabo mantendo algum diálogo ainda com o mito, mas esse livro é mais marcado pelas experiências urbanas, pela solidão metropolitana e pelas vozes das ruas e das vivências cariocas.
    
É difícil avaliar o conjunto de um trabalho poético, mas eu acho que tenho marcas de geografia diversas, como falei, de uma pluralidade de pessoas e experiências que me atravessaram ao longo dos anos. Eu gosto de pensar nisso: uma presença marcante do mar nordestino e da vida nordestina, depois uma vivência incrível numa cidade como Ouro Preto, experiências acadêmicas diversas, e até nas mesmas cidades foram tantas ruas, tantos bairros diferentes, de tal forma que quando fizemos a coletânea " Canção da mulher que virou barco" pela editora InMediaRes , que é um apanhado de minha produção poética até o momento, o título é muito expressivo porque esse barco indica movimento, viagem, transformação.  Esse livro hoje é uma das formas mais fáceis de encontrar os meus poemas( com um panorama do meu trabalho)  porque está à venda tanto no site da editora quanto na Amazon pela mesma editora.
 
Como foi sua produção literária e sua percepção da literatura durante o período mais duro da pandemia e durante o confinamento? Para você as pessoas em geral leram mais? Você leu mais?
 
 Em 2018, eu me mudei de vez para o interior do Rio e passei a viver em um sítio, ao lado do meu novo companheiro, estamos dessa vez em Maricá, onde dou aulas, e vivo em um cenário meio rural. Viemos para cá nos recolher depois do desastre que aconteceu com o Brasil. Às vezes fico só aqui porque meu marido viaja a trabalho ou por outras demandas e, realmente, no atual momento, tenho a experiência de uma vida muito reclusa, bem próxima do verde, de áreas ecológicas relevantes, tenho um dia a dia com galinhas, galos, gansos, plantas, árvores e pandemia já me pegou nessa reclusão, o confinamento não foi tanto um desafio para mim, o mais difícil foi lidar com a catástrofe que aconteceu na educação durante o período, com essa vida remota, com a falta de encontro presencial e com a distância da família e com a mortandade tão triste que encheu nosso mundo de luto.
 
 E aí foi a vez de ter uma outra experiência, no segundo ano da pandemia, trabalhando remotamente, eu voltei a ter uma vivência mais forte do Nordeste ao lado dos meus pais, que hoje vivem na Paraíba. Foi a vez de redescobrir o nordeste, passei cerca de um ano vivendo em João Pessoa e foram muitos desafios familiares, inclusive o da própria Covid que acometeu meu pai ainda antes da época da vacina, a hospitalização que não chegou a ser um caso de U.T.I, mas que inspirou muito cuidados foi o que me fez voltar. Na verdade, fui para João Pessoa depois que ele saiu do hospital e lá fiquei por um ano convivendo intensamente com meu pai e minha mãe, tendo a chance de estar com eles diariamente e de viver também os desafios diários deles.  Não foi um tempo de produção ou de mais leitura, foi um tempo de salvaguardar a vida, principalmente dos meus entes queridos e de estar um pouco na Paraíba,  que foi uma grande revelação para mim. Tive oportunidade também de estar no interior paraibano, no brejo, foram outras revelações do nordeste. Praticamente não tive nenhuma socialização maior, mas posso dizer que a Paraíba entrou de vez na minha bagagem de vida. 
 
Considera que sulistas e sudestinos leem o que é produzido no Norte e Nordeste? Leitores/as de uma região leem o que é produzido fora de suas bolhas?
 
 Penso que esse é um grande desafio para nós, não só no que diz respeito à literatura, mas no que diz respeito à cultura em geral, o que se faz no Sul ou no Sudeste ainda permanece sendo mais visível, mais lido, mais falado. Sendo que temos uma cultura muito vasta nesse país e o nosso grande desafio é ensejar esse diálogo para que possamos nos conhecer mais. Com certeza, somos muito diferentes, mas há produções incríveis por todo lado. Nós nordestinos temos uma contribuição imensa em tudo que já se produziu culturalmente até hoje mas, infelizmente, ainda há uma certa aura do eixo Rio-São Paulo. Talvez a grande catástrofe que aconteceu de 2018 para cá possa ter aberto um pouco mais os olhos dos brasileiros para o Brasil como um todo.
 
É preciso que dialoguemos mais na dramaturgia, nas artes plásticas, na música, na literatura, no cinema, na dança. A gente também conhece o que se passa no Norte, na Amazônia. Mas se existe algo que ainda possa se chamar amor ao Brasil, eu acho que está nessa busca de uma interação maior das nossas diversidades e num autoconhecimento mais pleno. Essa minha última vivência na Paraíba, inclusive, me revelou também um outro olhar sobre o Nordeste, me devolveu algum tipo de pertencimento, uma vez que ter transitado por muitos lugares me deixou meio sem raiz.  Então acho um desafio incrível a ser superado por quem ama o Brasil. Apesar de minha vida ambígua entre Nordeste e Sudeste eu nunca senti um autêntico diálogo e nunca fui seduzida por essa aura de Sudeste do ponto de vista da literatura, continuo lendo e apaixonada por tudo que se faz no Nordeste e acho lamentável que ainda não tenhamos superado essa fissura. 
 
 
Quais seus próximos projetos literários? Pensa em publicar nos próximos tempos?
 
Nos últimos anos meu principal projeto foi sobreviver, manter minha chama acesa para a vida, para não ser tragada pela pulsão de morte que nos assolou. Desafio de sobreviver como professora, como mulher, como migrante. Desafios econômicos  e muitos outros. Sem falar que deu um desgosto imenso de estar no Brasil. Aos poucos estou reacendendo a chama, acho que em algum tempo surgirá algo inédito. Tenho escrito quando sinto vontade, sem muita cobrança e apelidei esse novo modo de estar na escrita como " Diário de uma poeta no cinema", acho que existe esse novo projeto sendo que a palavra cinema aí tem algo mais amplo do que o que se conhece como história e produção cinematográficas, é como se o cinema fosse uma metáfora para a arte de olhar tudo isso que tem nos acontecido, para esse movimento de escuridão e luz que estamos vivendo.
 
Comecei a me sentir uma observadora cinematográfica do pequeno e do vasto mundo que me rodeia e quando escrevo alguma coisa, entendo agora como um registro de uma poeta no meio disso tudo. Tomara que seja esse o novo projeto, além de viver e me encantar, porque talvez o maior ganho de ter passado por essa pandemia seja ainda o de voltar a valorizar as pequenas coisas, os pequenos acontecimentos. Tudo tem um ar de reencantamento possível. Digo isso para que a gente não ache que é tudo só ruína. No âmbito microcósmico há muita luz, muitas pequenas alegrias e dádivas que ainda podemos redescobrir.
 
Um poema que talvez diga algo desse novo momento é esse aqui:
 
Breviário da fugacidade
 

Se tens um pequeno ofício, pratica-o calado

pode ser um lampejo de liberdade
Se tens amigos, convida-os ao cinema, aos saraus,
ao bazares, aos bares, à sala de tua casa
a uma brincadeira no parque
a todo tipo de ares
Se tens um amor, dedica-te
na cozinha, no quarto, no jardim
O amor é a melhor culinária do mundo
Se tens um filho que deseja partir,
deixa-o ir
Se tens uma janela: use-a
nenhuma rua repete o mesmo cenário