Marco de Touros com cruz acima mostrando a religiosidade atrelada à imagem do monumento.

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Marco de Touros: o primeiro monumento colonial do Brasil é potiguar!

A importância histórica deste marco é de inigualável valorpor ser o registro do surgimento do RN, assim como o primeiro marco do Brasil colonial

13 de dezembro de 2021

Julia Chaves | Arquiteta e urbanista

No início deste ano, o Marco de Touros ou Marco Zero foi transferido do Forte dos Reis Magos, onde se encontrava desde 1976, para o Museu Câmara Cascudo. A importância histórica deste marco é de inigualável valor estadual pois é considerado o registro do surgimento do Rio Grande do Norte e valor nacional pois é o registro do surgimento do Brasil Colonial. Portanto, em homenagem ao primeiro monumento colonial do país que completou 520 anos de história este ano de 2021, vamos relembrar neste texto a sua trajetória, sua importância nacional, a percepção da população sobre o mesmo ao longo do tempo e algumas hipóteses que surgiram por causa de sua existência e transformariam a história brasileira.

 
Marco de Touros ainda no Forte dos Reis Magos, local que permaneceu de 1979 – 2021 – Fonte: Tudo Para Homens, 2019

De acordo com a historiadora Françoise Choay (2000), podemos entender monumentos como todo o artefato ou conjunto de artefatos construídos com a função simbólica de lembrar algo a sociedade. Desta forma, se os marcos foram utilizados pelos portugueses para determinar e assegurar a posse das terras “descobertas” então estes são os monumentos coloniais mais antigos de que se tem registro no Brasil e o Marco de Touros, que foi o primeiro destes marcos a ser chantado em terras tupiniquins, é então o primeiro monumento oficial do Brasil Colonial. Um ano após a expedição de Pedro Alvares Cabral, conhecida como a expedição do descobrimento, em 7 de agosto de 1501 chegou ao Rio Grande do Norte a expedição que trazia o capitão-mor André Gonçalves, Gaspar de Lemos e Américo Vespúcio e tinha como objetivo fincar um sinal em nome do Rei Dom Manuel I, o venturoso (Reinado: 1495-1521) da posse portuguesa das novas terras. Desta forma, além do Marco de Touros, outros dois marcos foram colocados posteriormente no Brasil pela mesma expedição, sendo um desses no litoral onde atualmente é localizado o estado da Bahia e outro no litoral do atual estado de São Paulo.

Os marcos eram feitos de mármore português chamado de pedra lioz, possuíam aproximadamente 1,30m de altura por 20cm de espessura e 30cm de largura e em suas superfícies estão esculpidas a Cruz da Ordem de Cristo ou Cruz de Malta e o brasão de armas de D. Manoel I. Além do marco existiam duas outras pedras menores, chamadas de Testemunhas ou Tenentes (SILVA, 2020). Sendo assim, o Marco de Touros se tornou o primeiro monumento colonial do Brasil, representando o início da colônia portuguesa na américa, e consequentemente, do que mais tarde viraria o estado do Rio Grande do Norte.
 
Relevos no Marco de Touros – Fonte: Editado pela autora

    No período em que os monumentos foram fixados em terras brasileiras, estes possuíam um significado jurídico, representavam a autoridade portuguesa sobre os lugares “descobertos” e indicavam a qualquer outra nação a posse das terras demarcadas. Com o passar do tempo, os portugueses foram efetivando a ocupação do Rio Grande do Norte através da construção do Forte dos Reis Magos e da fundação de Natal, ambas em 1599 e posteriormente na construção de engenhos e fundação de povoados e missões jesuíticas. Desta forma, com a confirmação da soberania portuguesa por meio de outras edificações e núcleos urbanos, o Marco de Touros foi perdendo seu significado jurídico e passou a ter menor importância na sociedade colonial. Com o passar do tempo, surgiu nos povoados próximos a conotação religiosa para aquele marco.  Até a década de 1970, o monumento era tido pela população local como objeto sagrado, onde no local se reuniam devotos católicos, que acreditavam que o marco veio ao Brasil através dos portugueses como um sinal divino.

O caráter religioso foi predominante na população até que no final do século XIX, o marco passou a ser estudado por pesquisadores potiguares e sua importância histórica e valor cultural ficaram cada vez mais evidentes neste período. Em agosto de 1962, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional tombou o monumento e este passou a ser reconhecido como um monumento histórico. Neste período, surgiram rumores de que os devotos que cultuavam o monumento retiravam lascas do mármore português para fazer chás para cura de doenças, apesar de nunca ter sido provado a veracidade desta informação, esta foi uma das justificativas para a retirada do monumento do seu local de origem. Desde 1976, o Marco de Touros foi transferido para o Forte dos Reis Magos e desde então seu significado religioso foi perdendo força para dar lugar a um novo significado histórico. Sendo assim, este monumento foi percebido pela população de maneiras muito distintas ao longo do tempo, mas sempre sendo importante para os potiguares. Atualmente, o Marco de Touros encontra-se novamente em evidência, pois estudiosos contestam a história oficial de que o descobrimento do Brasil aconteceu na Bahia e acreditam que o Marco é uma das provas para esta teoria. 
 

Em meio as obras de restauro do Forte dos Reis Magos, o monumento foi transferido para o Museu Câmara Cascudo no início de 2021. De acordo com o superintendente do IPHAN, Claudio Machado, “[...] a transferência foi necessária dada a importância do marco na história do Brasil e do risco para o bem em consequência das obras de restauração pelas quais passa o Forte dos Reis Magos. Além disso, o local não possuía condições adequadas de conservação devido ao acúmulo de depósitos sobre a rocha calcária” (IPHAN, 2021) Uma decisão acertada para a salvaguarda do monumento, que há muito encontrava-se em uma das salas do Forte. O Marco Zero é o primeiro monumento do Brasil, marco da colonização portuguesa e símbolo do Rio Grande do Norte, se consolidado como um dos, se não o mais importante monumento brasileiro e, com orgulho, É POTIGUAR. Sendo assim, precisamos entender de uma vez por todas que o Rio Grande do Norte possui história SIM, riquíssima e que precisa ser urgentemente valorizada.


FONTES:
- CHOAY, Françoise. Alegoria do Patrimônio. Lisboa: Edições 70, 2000. 345 p.
Tradução: Teresa Castro.
- CARVALHO, Júlia Chaves Nunes de. ANTEPROJETO DE REUSO: Centro Cultural Francisco Alves Bay. 2018. 100 f. TCC (Graduação) - Curso de Arquitetura e Urbanismo, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2018. Disponível em: http://monografias.ufrn.br/handle/123456789/7589 . Acesso em: 04 dez. 2021.
- NATAL. Natal: História, Cultura e Turismo / Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo. Natal: DIPE – SEMURB, 2008. 200 p.
- SILVA, José Willians Simplício da. O MARCO DE TOUROS: um símbolo da religiosidade popular. História Sujeitos, Teorias e Temporalidades, Ponta Grossa - Atena: 01 jun. 2020. P. 125-139, Disponível em: https://sistema.atenaeditora.com.br/index.php/admin/api/artigoPDF/35271. Acesso em: 06 dez. 2020.
- IPHAN. Marco de Touros é transferido para o Museu Câmara Cascudo da UFRN. Gov.Br Ministério do Turismo, Brasil, 26 jan. 2021. Disponível em: https://www.gov.br/iphan/pt-br/assuntos/noticias/marco-de-touros-e-transferido-para-o-museu-camara-cascudo-da-ufrn. Acesso em: 06 dez. 2021.