Na poética de Antônio Ronaldo, o ouvido antece o verso

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Mínima Lira: a rebeldia do mínimo 

Expoente da poesia e da contracultura potiguar, Antônio Ronaldo está de volta com sua poética repleta de sonoridade

03 de setembro de 2026

Por Marize Castro

Quando conversei com Antônio Ronaldo para a série de entrevistas Além do Nome, no início dos anos 2000, ele me disse uma frase que, hoje, me parece revelar algo essencial de sua trajetória artística: “É preciso ser livre para ser bom.”

Essa afirmação voltou à minha memória durante a leitura de Mínima Lira (Gajeiro Curió, 2026), sétimo livro deste poeta, cantor, compositor e um dos nomes centrais, no Rio Grande do Norte, da chamada geração mimeógrafo. Sua obra não separa palavra, música e liberdade. O título deste novo livro, porém, não faz de Antônio Ronaldo um poeta minimalista. Ele faz questão dessa distinção: “Sou muito dramático para tanto.” Interessa-lhe o mínimo como extensão e concentração — “poemas-lampejo”, “cacos de ímpeto”, “fragmentos”, nas palavras do próprio poeta.

“A poesia não é feita para ser bela / A poesia é bola rolando”, escreve Antônio Ronaldo. O verso diz mais do que uma ideia de poesia. Diz um modo de fazê-la. Aqui, a palavra não repousa sobre a página. Circula pela conversa cotidiana, pela canção, pelo ditado popular, pelo humor, pela política. Avança, tropeça, muda de direção. É aí que o poema acontece.

Na poética de Antônio Ronaldo, uma palavra muitas vezes chama outra pela sonoridade. O ouvido antecede o verso: “Vacilos / Ciladas / Palavras cruzadas”, ou “Se dez troços / Eu tivesse / Destroços virariam”. O sentido nasce do movimento entre os sons.

Essa escrita tem raízes na poesia marginal dos anos 1970, especialmente na experiência da geração mimeógrafo. Dela permanecem a liberdade diante das formas, a irreverência, o humor e a desconfiança de qualquer solenidade literária. Em “Velas”: “Não dá pra escrever poesia / No papel da luz / Que não está em dia”. Essa liberdade aparece também na mistura de registros, na canção popular e em incursões pela língua inglesa — underground, outsider, pass one, let’s make movie — incorporadas com naturalidade à escrita.

A própria forma do livro guarda a história de sua composição. Antônio Ronaldo conta que Mínima Lira foi pensado inicialmente como uma coleção de pequenos livros de textos breves. Quando o projeto não se realizou, organizou seu próprio material em três possíveis livretos — A divina maldição, Todotosco e O fim está próximo —, que acabaram reunidos no volume atual.

No primeiro, a poesia volta-se para o corpo, o desejo, a memória e a própria condição do poeta: “Insurreto, outsider, antistabilishment / O que é que eu fui que não sou mais? / Pai / Me dai hoje ainda / A rebeldia agônica de cada dia”.

Essa rebeldia convive com o lúdico, com uma espécie de infância que sobrevive no gesto de escrever. Em “Ludo II”: “Porque sou devasso / Porque sou inocente / Preciso de amigos / Pra brincar”. Entre o devasso e o inocente, Antônio Ronaldo encontra uma definição muito pessoal para a condição do poeta: um ser que precisa brincar. 

Depois vem Todotosco. Talvez nenhuma palavra do livro o represente tão bem. Mais do que nomear o segundo movimento, Todotosco formula um fazer poético. Numa só palavra, já realiza a aproximação entre canção e poema, humor e crítica, oralidade e escrita. Leiamos o poema “KKK”: “Rir é tão próximo / De chorar / Basta chamar / De Klu Klux Klan / Esse meu KKK”. 

Aqui, o poema leva uma forma de escrita disseminada na comunicação digital para outro campo de sentido. O riso escrito como “KKK” encontra a sigla da Ku Klux Klan; a brincadeira verbal encosta subitamente na violência.

A poesia política de Antônio Ronaldo nasce também dessa tensão entre linguagem e realidade. No poema intitulado “Então?”, o futuro é chamado para dentro da conversa: “Vai, futuro / Velho meu / Desenha aí / Uma manhã de sol / Por cima desse breu”. O poema preserva a esperança sem apagar o breu que a cerca.

Em O fim está próximo, essa visão alcança outra intensidade. O presente aparece saturado de ruídos, discursos, excessos e falsas promessas. A poesia de Antônio Ronaldo recusa qualquer grandiloquência. Prefere a frase curta. O corte preciso. O ritmo. Em um dos últimos poemas do livro, o poeta escreve: “O fim está próximo / Deve ser o começo / Desde o berço / Chuto o pau da barraca / E rezo o terço”.

Nesta poética, os contrários cabem na mesma voz.