A autora durante o lançamento de Penúltima Palavra

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Penúltima Palavra: a poética da incompletude

Livro de estreia da poeta Stephanie Bittencourt mostra dimensão íntima sem o tom confessional

10 de agosto de 2026

por Marize Castro

No limiar do dizer está Penúltima Palavra (Sol Negro, 2025), estreia da poeta Stephanie Bittencourt. Logo no primeiro poema, surge a pergunta “o que era um eu?”. Em vez de espondê-la, o livro a percorre. Nos poemas iniciais, Stephanie escreve a partir de uma dimensão íntima, sem que sua poesia se torne confessional. Embora fale do pai, da mãe, a avó, do avô e dos irmãos, esse mundo íntimo não reduz o livro ao pessoal. Mesmo nesse núcleo, sua escrita se abre à reflexão sobre linguagem, imaginação, tempo e percepção. 

Nesse território, a mãe pode se tornar “a sensação mais próxima” que a poeta terá de deus, caso deus / fosse algo corpóreo e vocabular”. A imagem reúne corpo, palavra, afeto e divindade sem ordenar uma hierarquia entre eles. Nesta poesia, o pensamento nasce da imagem. Ele não chega antes para comandá-la; forma-se dentro dela. 

O livro é dividido em quatro partes: Nascedouro, Penúltima Palavra, Ao Modo das Mariposas e Mudança de Regência. Em Nascedouro, o despertar se inaugura sob o signo da origem e do espanto; em Penúltima Palavra, essa travessia se aprofunda, e a poesia desce ao subterrâneo da palavra, como escreve a poeta: “Me interessa o entardecer nessas coisas / aparentadas ao abismo / essas coisas trêmulas de verdade / que por mim vagueiam de pés descalços”; em Ao Modo das Mariposas, o desejo se volta para o encontro amoroso, tornando-se mais luminoso e corporal. 

Em Mudança de Regência, a pergunta lançada no primeiro poema do livro encontra um novo horizonte. Em “Banho de rio”, a poeta escreve: “é quando esqueço o Eu / que passo a me lembrar d’outra coisa / mais antiga / imorredoura”. Até a grafia acompanha esse movimento. O eu interrogado no primeiro poema aparece em minúscula e em itálico; em “Banho de rio”, reaparece agora em maiúscula e sem itálico. Sua inscrição na linguagem já não é a mesma. O esquecimento do Eu conduz à afirmação que encerra o poema: “ao que é / basta ser”. 

A poeta afirma escrever “para recrutar outros aflitos / na contramão do desencanto”. É um dos versos mais comoventes do livro. Sua poesia busca aqueles que ainda encontram na imaginação uma forma de compreender a vida. Perda, morte, inocência, eros e ausência percorrem os poemas, enquanto a capacidade de se surpreender continua acesa. 

No poema que dá título ao livro, Stephanie convoca uma comunidade. A dedicatória — “Aos adoecidos de poesia” — já define a quem se destina: aqueles para quem a poesia deixou de ser gênero literário e passou a ser uma forma de existência. Há uma delicadeza quase litúrgica nessa dedicatória. É um reconhecimento entre semelhantes. 

Quem já atravessou a madrugada esperando que “o silêncio lhe conte” algo conhece essa experiência. 

A poética de Stephanie Bittencourt mantém o leitor acordado diante do que insiste em 

não se deixar dizer completamente. A pergunta “o que era um eu”, lançada no início do livro, não encontra uma resposta final, pois pertence ao campo da linguagem, onde toda palavra é provisória. Essa poética não fracassa por não dizer tudo; encontra nessa incompletude a sua forma. A penúltima palavra é a palavra humana. Não é menor. É a condição da poesia.


Onde encontrar

Penúltima Palavra está disponível no site da editora Sol Negro.