Farmácia Viva é um projeto em atividade no Hospital Geral Dr João Machado

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Quando o resíduo se transforma em cuidado

A história da Farmácia Viva e o Projeto Nossa Horta, nascidos no Hospital Geral Dr. João Machado

06 de agosto de 2026

Por Leticia Lopes Cardoso Outeda.

Todo hospital tem uma rotina visível: medicamentos, exames, consultas, equipamentos, profissionais correndo de um lado para o outro. O Hospital Geral Dr. João Machado (HGJM), em Natal, também guarda uma dinâmica invisível, um fluxo silencioso que nasce das sobras de alimentos crus do Setor de Nutrição, somadas às folhas recolhidas nas áreas externas e internas da unidade. Esse material, antes descartado como resíduo, passa a ganhar uma nova função: torna-se insumo para o cultivo de hortaliças orgânicas (Nossa Horta) e plantas medicinais (Farmácia Viva), posteriormente disponibilizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) do RN, sendo distribuídos aos pacientes. 

Entre essas duas pontas (resíduo e cuidado) está o projeto Nossa Horta, no HGJM da Secretaria de Estado da Saúde Pública do Rio Grande do Norte (SESAP), um projeto que não nasceu de uma grande verba, e sim de uma pergunta simples que qualquer gestor público deveria fazer com mais frequência: o que estamos jogando fora que poderia virar cuidado?

Farmácia Viva Sesap-RN.
Fonte: Arquivo Interno (2026)

Uma horta ressignificando sobras
A resposta começou a ser construída em outubro de 2021, quando dois servidores do hospital, Ozias Alves e João Maria, levaram ao HGJM a proposta de um projeto de horta, com o objetivo de oferecer alimentação saudável aos pacientes psiquiátricos. Faltava, porém, o insumo principal: o composto orgânico necessário para nutrir as plantas. A solução veio do próprio ambiente hospitalar.

"Vimos que tínhamos a fonte: as sobras de alimentos e as folhas recolhidas no hospital. Daí passamos a fazer a compostagem e conseguimos o insumo principal, os compostos orgânicos, produzidos sem nenhum acréscimo de produtos químicos, totalmente orgânicos", explica Ozias, um dos idealizadores do projeto.

O adubo resultante passou a fertilizar o cultivo de verduras, legumes e frutas, servidos depois nos pratos dos próprios pacientes.

O projeto entrega três elementos ao mesmo tempo: alimentação mais saudável para quem está internado, redução de resíduos e uma prática concreta de sustentabilidade dentro de um ambiente que, historicamente, "produz muito lixo e recicla pouco". Um ciclo fechado, pensado e executado dentro da própria gestão hospitalar.

Hoje, o HGJM recicla uma quantidade considerável de resíduos, somente na compostagem, são mais de uma tonelada por mês de material que, antes, seria descartado no meio ambiente e contribuiria para a poluição ambiental. Esse volume se converte em insumo para o cultivo de alimentos orgânicos e plantas medicinais. "Não pode existir Farmácia Viva com solo morto", resume João Maria, um dos criadores do projeto. 

Da terra ao cuidado: a hortoterapia 
Além de fornecer o adubo que sustenta a horta, o projeto abriu um segundo braço, menos falado, mas igualmente relevante: a hortoterapia. Pacientes internados participam das atividades como parte do próprio tratamento: plantam, colhem, irrigam, fazem mudas, peneiram os compostos e ajudam na execução da compostagem. "Esse momento traz a ressocialização e o bem-estar para aqueles que saem das enfermarias e passam a ter contato com a natureza", explica Ozias Alves. 

Nossa Horta, HGJM

Modelo de gestão: da horta ao horto medicinal
Foi esse resultado prático que abriu a porta para algo maior. A experiência mostrou à Sesap-RN que havia ali um método replicável, e um método é sempre mais valioso, para a gestão pública, do que uma boa ação isolada.

A partir dessa constatação, Sesap-RN e Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) se articularam para desenhar um projeto técnico de cultivo de plantas medicinais e produção de medicamentos fitoterápicos para o SUS. A proposta foi aprovada em edital do Ministério da Saúde, uma conquista que raramente aparece nas manchetes, mas que define se um projeto sai do papel.

Nascia ali a Farmácia Viva: um projeto que une assistência farmacêutica, pesquisa científica, ensino e extensão universitária sob o mesmo guarda-chuva institucional.

Medicamentos fitoterápicos feitos com as

plantas medicinais do projeto. Fonte: Arquivo Interno (2026).


Ciência onde já se tem muita tradição
Existe uma imagem comum sobre plantas medicinais: a de um saber popular, caseiro, mas distante dos protocolos da vigilância sanitária. A Farmácia Viva rompe com essa imagem, pois busca ter um elo entre o conhecimento ancestral de uso de plantas medicinais com as comprovações científicas de segurança, eficácia e qualidade. Promovendo uma forma de produzir medicamentos mais próximos da imagem do próprio SUS. 

Cada espécie medicinal cultivada segue critérios técnicos definidos, permitindo a rastreabilidade “da semente ao paciente”. Cada etapa de produção obedece a um protocolo (RDC n 28/2013 da ANVISA). Cada produto final passa por processos de controle até chegar ao usuário do SUS. O resultado é um modelo em que a planta deixa de ser apenas um recurso natural para se tornar insumo de uma política pública de saúde, com segurança sanitária e padronização como exigências, não como detalhe.
Contribuindo, assim,  para uma nova via de acesso a medicamentos gratuitos para a população, dentro dos padrões determinados pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). 

 

Folder da linha do tempo da Farmácia Viva Sesap-RN. Fonte: Arquivo Interno (2026).
 

Uma política pública ainda em obra
A Farmácia Viva segue em construção. O horto medicinal já funciona dentro do HGJM, mas a etapa seguinte, que é a produção dos fitoterápicos, ainda depende da reforma do laboratório, da aquisição de equipamentos e da validação de processos. É a parte menos visível de qualquer política pública: a burocracia necessária para que um bom projeto se torne, de fato, resultado para a  população.


Entre os medicamentos planejados para serem produzidos estão chás medicinais, tinturas, cremes e sabonetes líquidos, produzidos a partir de espécies vegetais de interesse regional. Em paralelo, a parceria com a UFRN sustenta pesquisas e atividades de ensino e extensão voltadas à orientação do uso seguro de plantas medicinais dentro do sistema público de saúde.
Essa lentidão, aliás, não é exclusividade do Rio Grande do Norte. Para a professora Raquel Giordani, da UFRN, em fala durante o 20º Encontro de Fitoterapia, afirma que o descompasso é nacional: "A farmácia viva é um programa de estado, e nós estamos há 20 anos dentro desse programa, e é impressionante como algo que traz um benefício tão imediato para a população ainda está num ritmo pouquíssimo acelerado."

Local de ensino, pesquisa e extensão. Fonte: Arquivo Interno (2026).

Entrevista
Quem faz acontecer - Dra. Larissa Pereira, coordenadora do projeto Farmácia Viva Sesap-RN
Qual foi o maior desafio até aqui? 


R: O maior desafio nesse processo tem sido conseguir institucionalizar a Farmácia viva como setor e um novo serviço do SUS no RN. Ainda precisamos avançar com assistência farmacêutica, nessa área incluindo os fitoterápicos já disponíveis na RENAME nas nossas listas estadual (RESME) e municipais (REMUNEs).

O que mais surpreendeu durante a implantação? 

R: O que mais tem me surpreendido é ver a grande necessidade por medicamentos que SUS tem, devido ao desabastecimento de vários itens para o cuidado em saúde. 
E que, ainda assim, encontramos limitações para a implantação da Farmácia viva, serviço de produção de medicamentos dentro do SUS. Algo que poderia auxiliar muito a assistência em saúde da população.

Qual foi a maior conquista alcançada? 

R: Nós conseguimos que o Programa Farmácia Viva fosse instituído na rede estadual de saúde pela Lei Estadual nº 12.593, de 18 de dezembro de 2025. A norma promove o uso de plantas medicinais e fitoterápicos no SUS estadual. Avanço importante para prever recursos e ações públicas que garantam a sustentabilidade da Farmácia Viva. Nesse período também foi publicada uma lei municipal, em Pedro Avelino-RN, a  Lei Municipal nº 1002/2025, com foco em práticas integrativas de saúde pública.

Qual o próximo sonho do projeto? 

R: O sonho atual é ver o início da obra de reforma do Laboratório de Produção de Medicamentos Fitoterápicos. Obra que é compromisso de contrapartida da Sesap-RN para o Ministério da Saúde, desde 2024 quando o estado foi contemplado com o edital de Farmácia viva.

Laboratório de Produtos Naturais. onte: Arquivo Interno (2026).

Quando uma boa ideia inspira outras

O relato de quem está à frente da Farmácia Viva confirma o que os números e os protocolos, sozinhos, não mostram. Para a Dra. Larissa Pereira, o maior desafio até aqui não foi técnico, foi institucional: transformar a Farmácia Viva em setor permanente do SUS no Rio Grande do Norte, e não apenas em um projeto pontual.

No caminho, a coordenadora também esbarrou num retrato mais amplo do sistema: o SUS enfrenta desabastecimento de itens básicos de cuidado à saúde. É esse cenário que torna a produção própria de fitoterápicos não apenas um diferencial e sim uma necessidade urgente.

No HGJM, essa construção começou com uma pergunta simples: como transformar um problema em solução? Resíduo orgânico virou adubo. Adubo virou alimento. A experiência virou projeto.

E o projeto, hoje, é política pública em construção, com horto implantado e um próximo passo já definido: o início da obra do Laboratório de Produção de Medicamentos Fitoterápicos, contrapartida que a Sesap-RN assumiu com o Ministério da Saúde desde 2024, quando o estado foi contemplado no edital de Farmácia Viva.

A escala do desafio, porém, ultrapassa Natal. Na mesma fala, professora Dra. Raquel Giordani resume: "Mais de 5.000 municípios brasileiros aguardam que essa tecnologia super avançada chegue ao paciente que está no SUS."

Essa é a principal lição da Farmácia Viva: grandes transformações costumam começar quando alguém decide olhar para um problema cotidiano e enxergar nele uma oportunidade de construir algo diferente. Para Ozias Alves, a união dos projetos vai além da produção de alimentos e fitoterápicos. "Levar a alimentação saudável e medicamentos fitoterápicos aos usuários do SUS é beber na fonte: é resiliência e ancestralidade, é reconhecer os saberes tradicionais, promover saúde de forma integral, fortalecendo a integração do ser humano com a natureza. Isso é o SUS." 

É justamente esse tipo de iniciativa que a Virou Projeto pretende apresentar: experiências que nasceram de desafios reais, foram estruturadas por meio da gestão, da ciência e da colaboração institucional, e que hoje têm potencial para inspirar novas soluções em outros lugares.

 


Leticia Lopes Cardoso Outeda. Graduanda em Gestão de Políticas Públicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e atualmente estagiária da Coordenadoria de Gestão de Pessoas (COGEP) da Secretaria de Estado da Administração do Rio Grande do Norte (SEAD/RN). Nesta coluna, convido você a conhecer iniciativas que demonstram como planejamento, inovação, colaboração e compromisso social podem se transformar em impacto real para a população potiguar.